A literatura acima da filosofia

A literatura sempre foi e será, infinitamente, superior à filosofia porque é mais rica, mais generosa, mais livre. Se me ponho a filosofar, logo tenho que encontrar uma voz, que há de ser mantida do início até o final e que dirá tudo, mesmo aquilo de que ela discorda. No texto filosófico, só há uma voz: monofonia da filosofia, a paranoia enquanto princípio do cosmo, enquanto narrativa de um autor universal, a eterna via crucis do eu.

Por outro lado, se estou simplesmente disposto a escrever, nada controla a polifonia esquizoide que borbulha dentro de mim. As vozes se multiplicam sem cessar no magma do caos em erupção. A literatura é, ao mesmo tempo a crença quase bíblica de que todas as vozes cabem num mesmo texto e a consciência desalienada de que o escritor não se confunde com nenhuma delas. A polifonia da literatura rende ao escritor a liberdade, melhor ainda, a impunidade de ter todas as ideias, sem precisar se colocar como defensor de nenhuma. O artifício é extremamente simples: basta introduzir alguma marca de mudança de voz, uma alavanca de câmbio qualquer, como um travessão (na verdade nem isso é necessário), e voilà – não há mais apenas uma voz, mas tantas quantas quisermos, ou ainda, tantas quantas elas, as vozes, quiserem.

Tanto o texto filosófico quanto o texto teórico em geral exigem uma coerência que aquele se dispõe simplesmente a escrever se dá, com toda a razão, a liberdade de desprezar. Essa liberdade, possibilita àquele que inventa um distanciamento que aquele que pensa, em geral, não conhece. É como se pensar fosse sempre defender uma ideia, colocar-se como idêntico a ela, coisa que um ator que nem precisa ser bom é perfeitamente capaz de não fazer. É a diferença entre escrever um livro de filosofia e escrever, por exemplo, um romance. Um romancista que realmente soubesse filosofia seria capaz não apenas de defender uma filosofia, impostando sua voz própria na grande discussão filosófica. Ele seria, em princípio, capaz de criar toda a discussão, inventar diferentes personagens, diferentes filósofos, cada com uma filosofia diferente, sem se ver, em momento algum, obrigado a escolher a voz que seria a dele.

Não faz sentido condenar um ator por representar bem o papel do vilão, tampouco um escritor por construir, com toda a riqueza e realismo, um mundo de cuja verdade discordamos. No entanto, quando se trata de inventar o pensamento, o instinto condenatório é rapidamente ativado: começamos a concordar ou a discordar e, em seguida, é bem raro que isso pare. Em consequência, o filósofo é visto como alguém que deve defender alguma ideia, mesmo que não tenha nenhuma. Ele é alguém que fala com uma voz apenas ou em uma única voz – a dele próprio, o eu filosófico, o cogito, o sujeito, isto é, um fantasma esquálido, espectro depauperado de um deus que já morreu. A filosofia parece ser dominada por um bom-mocismo que, na verdade, não tem nada a ver com a produção do pensamento. Ou não? Seria possível pluralizar o pensamento, isto é, pensar em várias vozes? Esse pensamento polifônico seria filosofia ou literatura ou – delírio? (Perspectivismo…)

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