Stuprum sive bellum

Excusez-moi, mesdemoiselles, mas, na qualidade de observador desinteressado, isto é, por pura curiosidade científica, sem a menor intenção nem de assediar nem de seduzir ninguém, gostaria de pedir um à parte. Permitam-me colocar a ideia em forma de interrogação. O que é seduzir? O que é assediar? Em que ponto as coisas se separam? Não seria a sedução necessariamente uma espécie de guerra, uma relação de poder em todo caso, na qual se trata de praticar uma certa violação? Explico-me. Num certo sentido, aliás compreendido dentre os que refere o Caldas Aulete, seduzir é convencer. E o que é convencer senão vencer, num certo sentido, uma batalha? O que se passa num processo de convencimento? É necessário que haja uma resistência inicial, algo a ser dobrado, uma certa barreira a ser rompida. Não é preciso convencer quem já está convencido. É preciso que alguém não esteja convencido do que eu digo para que eu possa tentar convencê-lo. Senão, não faz sentido. O mesmo vale no tocante à sedução. Não é possível seduzir quem já está seduzido. Em outras palavras, no momento inicial, a relação entre o sedutor e o seduzido (ou “sedunzido”, aquele que pode ser seduzido ou não) é uma relação de oposição, de poder, de guerra, em suma, de tensão (e talvez por isso também de tesão). A sedução não começa com um “sim”, mas com um “não” que se tornará “sim” ao fim de um certo processo, se o sedutor for bem sucedido e conseguir reverter a posição que, de início, era a do seduzindo. Esse processo pode ser mais ou menos difícil, mas sempre haverá um certo grau de dificuldade. Para o sedutor, trata-se precisamente de superar essa dificuldade. Há algo a vencer, a conquistar, a ganhar. E essa conquista consiste em levar o outro a mudar de posição, a se contradizer, a se dobrar. É preciso que o outro viole a lei que ele mesmo, de início, impôs. Precisamente aí se encontra aquilo que o sedutor busca, ele que tem em mente penetrar em uma cidadela. Todo sedutor é, nesse sentido, um violador, alguém que quer romper um certo limite ou barreira. Pôr muro abaixo mesmo, e não apenas “quebrar o gelo”. É nessa violação que mora, para ele, todo o prazer da sedução. Em sua estratégia, ele pode muito bem mover a esperança sincera de que o resultado da sedução seja igualmente prazeroso para o seduzido. Mas a promessa de felicidade que ele faz é necessariamente irresponsável. Talvez seja possível amar ao próximo como a si mesmo, mas é definitivamente impossível gozar o gozo do próximo como se goza o próprio gozo. Raras são as promessas tão politiqueiras quanto aquelas que concernem o gozo alheio. E o seduzido sabe disso, se a sedução funciona, é porque o seduzido topa, se alia, se torna cúmplice do sedutor numa parceria criminosa contra a lei que, de início, ele mesmo havia estabelecido. Daí, vê-se que a sedução é, por definição, um ato contra a lei, um crime. Só que um crime em que o criminoso e a vítima coincidem na mesma pessoa, a daquele que “se deixou seduzir”. Por isso, também é um crime que não há culpa, nem tampouco pena. Para enfim deixá-las em paz, refaço a pergunta de partida: não seria toda sedução uma guerra e uma violação?

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