2016: o ano da pós-verdade, ou, O braço midiático do Império contra-ataca

Estamos perdendo a capacidade de separar crenças pessoais de fatos objetivos?” Era o que perguntava uma manchete outro dia na mídia. Fiquei pensado: e desde quando temos ou tivemos essa capacidade? Desde quando a mídia, em particular, tem ou teve essa capacidade?

Chamado de “ano da pós-verdade”, 2016 foi o ano em que o usuário comum das redes sociais descobriu como se fabricam notícias e como se inventam verdades. Precisa-se apenas de um pouco, cada vez menos, de tecnologia e de um mínimo de criatividade, como temos visto.

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Acontece que esse é exatamente o “negócio” dos veículos de mídia em geral: produzir verdades, criar fatos. Naturalmente, a mídia diz que esse não é o negócio dela, mas da ciência. Isso, porém, faz parte do próprio negócio – e, diga-se de passagem, a ciência, realmente, nunca conseguiu converter verdades em negócio, business, como a mídia faz. Aos olhos do jornalista, o cientista e o intelectual sempre parecem um tanto ingênuos, afinal nem imaginam que todo seu esforço desinteressado pela verdade nunca vai valer nada, em nosso mundo, enquanto essa verdade científica não tenha sido diagramada e devidamente transformada em “verdade” pela mídia. O jornalista também olha para o político dessa maneira, mas sabe que esse não tem nada ingênuo, nem faz o menor esforço pela verdade, embora construir a verdade seja um de seus interesses básicos e uma das atividades típicas de seu dia-a-dia, muito mais do que do cientista ou do intelectual.

A novidade que estão querendo transformar em estrondo, comme d’habitude, é que aqueles que deveriam ser os destinatários no máximo participativos das verdades postas à venda no mercado pela mídia, de repente, começaram a fazer por conta própria a mesma coisa que a mídia desde sempre tinha feito, aliás, a mídia se fez fazendo isso: a verdade. E não há culpa nenhuma do jornalista nisso; o que ele faz, ao fazer a verdade diária, ou hebdomadária, não é propriamente uma maldade. Premido pela lógica espaço-temporal do “furo de reportagem”, ou seja, tendo em vista que tempo e espaço são dinheiro, o discurso midiático caracteriza-se, necessariamente, por um déficit de verificação fática e, por vezes, de validade lógica.

Ora, os jornalistas fazem isso porque sabem – e fizeram disso uma profissão, provavelmente tanto quanto os pastores – que, de forma independente desse “detalhe” que é um déficit de veracidade, um discurso pode perfeitamente produzir efeitos de verdade ali onde realmente conta. O lugar onde os efeitos de verdade cumprem seu papel em primeiro lugar não é a universidade – este condomínio privado devidamente cercado, destinado àqueles que desejem perder suas vidas digladiando-se pela verdade –, mas o imaginário da massa. Aí, basta basicamente a verossimilhança (nisso, o gênero jornalístico aproxima-se bem mais da retórica e do direito que da ciência, embora isso seja algo que não pode vir a público).

Pretendendo compensar esse déficit sine qua non, o discurso midiático remete constantemente para fora de si mesmo. Faz parte das regras de seu jogo que os jornalistas não sejam (quase) nunca a testemunha, nem tampouco a autoridade. É isso que, em geral, chamam de “isenção jornalística” e de “compromisso com a verdade”. Seja como for, divulgar como verdadeira uma afirmação – o que subentende-se desde que se vê uma manchete estampada em qualquer parte –, sem saber se ela é efetivamente verdadeira é essencial para o gênero midiático. A questão gira aqui em torno da gestão do significado do predicado “é efetivamente verdadeiro”. E é evidente que o jornalismo caracteriza-se por uma lassidão muito maior a esse respeito do que a ciência.

Ocorre que agora, num acirramento de um processo que se iniciou há muito tempo – e que teve um de seus ápices na já desatualizada Web 2.0, sobretudo, com o engendramento da blogosfera -, o usuário ordinário da internet, mesmo sem se dar conta disso, vê-se munido de um poder que, em princípio, segundo a mídia, deveria ser exclusivo da mídia. Esta reage de imediato, declinando um estilo acusatório um tanto artificioso, como de praxe, a fim de advogar em causa própria, de uma maneira que evidentemente se aparta de qualquer isenção possível. À la Zola, a imprensa vai à imprensa denunciar algo que seria como um “estado de exceção da multidão dos internautas”, uma “usurpação do Quarto Poder pela massa de comunicação amorfa” e ainda uma “perniciosa tendência à delinquência cibernética, cujo exemplo mais terrível é aquele dos hackers black blocks”.

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É como se, depois de séculos vendendo conversa fiada e história furada, os capitalistas da informação viessem nos dizer: “Hei, esse negócio de fabricar verdade e inventar fatos não é de vocês. Vocês deveriam consumir isso e não produzir. Fomos nós chegamos primeiro! Vocês pensam que é fácil?” E, em tom de ameaça, vaticinassem: “A verdade de vocês não é verdade como a nossa, pois não passa de uma ‘pós-verdade’, ou seja, de uma ‘pré-mentira'”. Aí, eles filosofam, muito embora em geral, para eles, o deslizamento filosofante seja o que há de mais incompatível com o formato da notícia.

O conceito de “pós-verdade” pertence à estratégia de sobrevivência da mídia decadente e obsoleta do nosso tempo. Faz parte de um discurso que não se dissocia da ideia de que eles, os produtores da aparência das aparências, as grandes plataformas de espetáculos, é que são os “Guardiões da Verdade”. Seja como for, a tendência cujo anúncio se formula com esse conceito de pós-verdade, pouco importa de onde ele tenha vindo, indica que a abolição, mais ou menos rápida, da propriedade midiática privada da verdade já está em curso. Com efeito, ela parece ter a potência de um movimento, de um descarrilamento, de um arrebentamento que, cedo ou tarde, nem o Quarto Poder vai conseguir conter.

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